Medos e Fobias



Revista Psicologia – Grandes Temas do Conhecimento (Março/2017)

Matéria escrita por Simone Lemes intitulada “O medo nosso de cada dia”

 

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Ao pensar no tema deste artigo considerei os meus medos e como estou lidando com eles. A principio entendo que se estou conseguindo viver de uma forma, digamos, “tranquila” é porque de um jeito ou de outro estou conseguindo combatê-los. Isso não quer dizer que eu seja a Mulher Maravilha e que esteja imune a qualquer situação de pavor, muito pelo contrário, mas acho que com o passar do tempo estou me conhecendo mais e isso tem me ajudado bastante.

Pensando nisso quero falar dos vários tipos de medo, desde aqueles com causas externas e reais até aqueles que criamos dentro de nós, mas antes de qualquer coisa devemos entender o conceito de medo e suas consequências em nossas vidas.

Vamos por partes, o que é o medo? O medo é uma condição emocional que aparece em razão de uma situação de eventual perigo. Quando nossa segurança é ameaçada por alguém ou por alguma coisa, temos uma resposta imediata de compostos químicos que provocam reações físicas e psíquicas que caracterizam o medo. Sintomas como palpitação, taquicardia e suor nas mãos são atributos de respostas físicas vindas como uma consequência natural dessa dinâmica da mente e corpo.

O medo nos acompanha ao longo de nossa existência, ao nascermos o medo de cair, medo de estranhos, na infância medo de separa-se dos pais, na adolescência medo de não ser aceito, na vida adulta medo de perder o emprego, na velhice medo de morrer.

O medo também pode surgir da falta de conhecimento. Imagine se existisse uma máquina do tempo e viesse um homem das cavernas nos visitar e conhecer nossa era, especificamente o século XXI. Provavelmente ele teria um enfarte logo nas primeiras horas de sua chegada quando se deparasse com a quantidade de situações desconhecidas que enfrentaria no nosso dia a dia, algumas reconhecidamente perigosas e com as quais, infelizmente, estamos nos acostumando a conviver, e outras que nos dão prazer, mas que nele causariam medo.

Mas o medo, que normalmente causa sofrimento, também tem um lado positivo, pois é através dele que ficamos mais atentos e alertas quando o assunto é sobrevivência. Então vejamos, numa situação de medo o nosso organismo nos prepara para optarmos por uma dessas duas situações: a confrontação ou a fuga, particularmente essa última me parece ser a mais inteligente em alguns casos, um adversário mais forte, por exemplo.

O medo pode surgir de situações reais, como por exemplo, medo da violência nas ruas, ou então, de situações infundadas, tal como, deixar de passar em baixo de uma escada por temer atrair o azar, ou ver um gato preto, e por aí vai.

O medo pode atingir diversos graus, desde uma pequena ansiedade a um pavor insuportável. A ansiedade é, assim, uma atitude fisiológica normal responsável pela adaptação do organismo às situações de perigo. Imaginemos, por exemplo, as mudanças acontecidas em nossas condições físicas quando um cachorro feroz tenta nos atacar, quando fugimos de um incêndio, quando passamos apuros no trânsito, quando tentam nos agredir e assim por diante.

Frente a frente com o perigo nosso organismo faz coisas extraordinárias, coisas que normalmente não seríamos capazes de fazer em outras situações. Se não existisse esse mecanismo que nos coloca em posição de alerta, talvez nossa espécie não tivesse sobrevivido às adversidades encontradas pelos nossos ancestrais. Embora a ansiedade favoreça a adaptação, ela faz isso somente até certo ponto, ou seja, até que nosso organismo atinja um máximo de eficiência, ou que sucumbamos definitivamente. A partir de um ponto excedente de ansiedade, ao invés de contribuir para a adaptação, ocorrerá exatamente o contrário, a falência da capacidade adaptativa.

Lembra do nosso homem pré-histórico que veio na máquina do tempo? Pois bem, ele também passou por diversas situações apavorantes. A sobrevivência diante dos perigos concretos e próprios da luta pela vida, como foi o caso das ameaças de animais ferozes, das guerras tribais, das intempéries climáticas, da busca pelo alimento, da luta pelo espaço geográfico, fizeram dele um sobrevivente que nos deixou um grande legado.

No ser humano moderno, apesar dessas ameaças concretas não mais existirem em sua plenitude tal como existiram outrora, esse equipamento biológico continuou existindo. Apesar dos perigos primitivos e concretos não existirem mais com a mesma frequência, persistiu em nossa natureza a capacidade de reagirmos ansiosamente diante das ameaças.

Com a civilidade outros perigos apareceram e ocuparam o lugar daqueles que estressavam nossos ancestrais arqueológicos. Hoje em dia tememos os assaltos, homicídios, desastres naturais, a sobrevivência econômica, as perspectivas futuras e mais uma infinidade de ameaças abstratas e reais, enfim, tudo isso passou a ter o mesmo significado de ameaça e de perigo que as questões de pura sobrevivência à vida animal tinham para nossos ancestrais. Se na antiguidade tais ameaças eram concretas e a pessoa tinha um determinado objeto real a combater, localizável no tempo e no espaço, hoje em dia esse objeto de perigo vive dentro de nós. As ameaças vivem, dormem e acordam conosco.

O medo aparece em nossas vidas como um sentimento de apreensão, uma sensação de que algo está para acontecer, ele representa um contínuo estado de alerta e uma constante pressa em terminar as coisas que ainda nem começamos.

Se, em épocas primitivas o coração palpitava, a respiração ofegava e a pele transpirava diante de um animal feroz, hoje em dia nosso coração também bate mais forte diante do desemprego, dos preços altos, das dificuldades para educação dos filhos, das perspectivas de um futuro sombrio, e assim por diante.

A insegurança que toma conta em razão da violência é de fato uma das mais apavorantes sensações nos dias de hoje. O medo é real! Independentemente dos esforços que possamos fazer para nos proteger, não teremos a certeza de que estamos imunes a uma situação assustadora, como por exemplo, um assalto.

Como podemos ver nosso medo é continuo e crônico. Se a adrenalina antes aumentava só de vez em quando, hoje ela está aumentada quase diariamente.

Seria a personalidade de cada um que de fato atribui valores e significados aos acontecimentos, tomando-os ou não por estressantes, angustiantes, temíveis, ameaçadores? Se a personalidade fosse realmente responsável, ela ocuparia somente uns cinquenta por cento, pois não poderíamos colocar toda responsabilidade nela já que existem situações adversas concretas no dia a dia.

Mas ao mesmo tempo em que algumas pessoas têm pesadelos só de pensar em alguma situação de perigo, existem outras que até procuram ambientes que proporcionem uma sensação de medo. Qual seria? O cinema! E claro, um bom filme de terror. Essa combinação é perfeita para mexer com sensações que despertam o fascínio e o medo, uma tela imensa somada com um poderoso som “surround” e ainda, para completar o clima, o escuro. Ah… estava esquecendo, agora temos também os cinemas Imax. Essas salas de cinema tem a capacidade de mostrar imagens muito maiores em tamanho e resolução do que os sistemas convencionais de exibição de filmes. O filme fica mais apavorante ainda!

O porquê das pessoas buscarem esse tipo de experiência ainda é tema de pesquisas científicas. O que se sabe até o momento é que os amantes do terror são melhores em lembrar-se de que a morte e a destruição são ficção. Na verdade é uma experiência que de certa forma torna-se controlada, já que no final do filme a vida volta ao normal e todos, ou alguns, podem retornar sãos e salvos para suas casas. O medo nesse caso é provocado e a consequência disso fica por conta de cada um.

Outra questão para abordarmos é entender o que fazer quando o medo passa a ser considerado patológico? E ainda, quando esse medo nos paralisa ao ponto de deixarmos de fazer coisas corriqueiras tornando-nos incapazes de seguir a diante? Se isso estiver acontecendo com você, cuidado! O medo pode se tornar uma fobia.

Contextualizando, a palavra fobia se originou do grego phóbos, que significa “medo” ou “terror”. É um sentimento excessivo de medo e aversão por algo ou alguém. Uma pessoa com fobia possui um sofrimento psíquico importante e dependendo do nível desse sofrimento vai necessitar de ajuda psicológica.

Existem vários tipos de fobias, como curiosidade podemos citar: a aracnofobia – medo de aranhas, a claustrofobia – medo de lugares fechados ou com muitas pessoas, a coulrofobia – medo de palhaços, a acrofobia – medo de altura, a catsaridafobia – medo irracional de baratas, a aicmofobia / aiquimofobia / belonofobia – medo de agulhas ou injeções, a nictofobia medo do escuro, a elurofobia medo de gato, a ablutofobia – medo de tomar banho e a afefobia – medo de contato.

Dentro da Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento do CID-10 (Classificação Internacional de Doenças), as fobias estão na classe de transtornos neuróticos, estresse e somatoformes, grupo F40 – F48, que compreende os Transtornos Fóbicos Ansiosos (F40).  Esclarecendo, transtorno somatoforme é, resumidamente explicando, um tipo de classificação para doenças em que se quaisquer transtornos físicos estão presentes, eles não explicam a natureza e a extensão dos sintomas ou a angústia e a preocupação do paciente.

Nessa categoria encontramos a agorafobia (F40.0) que seria o medo de sair de casa, de entrar em lojas, multidões e lugares públicos ou de viajar sozinho em ônibus, trens e aviões. É um transtorno incapacitante, pois algumas pessoas tornam-se prisioneiras em sua própria casa. Esses indivíduos passam por um sentimento aterrorizante pelo fato de acreditarem que poderão ter um colapso na rua e serem deixados sem socorro.

Há também as fobias sociais (F40.1), ou seja o medo de expor-se a outras pessoas em grupos, levando a evitação de situações sociais. Muitas pessoas que sofrem dessa fobia são capazes de faltar à aula ou ao trabalho no dia em que deveriam fazer uma apresentação de assunto de seu conhecimento aos colegas ou chefias.

Existem fobias específicas (F40.2) como o medo de chegar próximo a determinados animais ou situações,  como por exemplo, os vários tipos mencionados anteriormente.

Ainda, de acordo com o CID existe o transtorno de pânico (F41.0) que se caracteriza por ataques recorrentes de ansiedade grave (pânico), o qual não está restrito a qualquer situação ou conjunto de circunstâncias em particular e que é, portanto, imprevisível.

Nas palavras de Dalgalarrondo (2006, p. 110):

“ [...] A fobia simples é o medo intenso e desproporcional de determinados objetos, em geral pequenos animais (barata, sapo, cachorro, etc.) A fobia social é o medo de contato e interação social, principalmente com pessoas pouco familiares ao indivíduo e em situações nas quais o paciente possa se sentir examinado ou criticado por tais pessoas (proferir aulas ou conferências, ir a festas, encontros, etc.) A agorafobia é o medo de espaços amplos e de aglomerações, como estádios, cinemas, supermercados. Inclui-se na agorafobia o medo de ficar retido em congestionamentos. A claustrofobia é o medo de entrar (e ficar preso) em espaços fechados, como elevadores, salas pequenas, túneis, etc. [...] Pânico é uma reação de medo intenso, de pavor, relacionada geralmente ao perigo imaginário de morte iminente, descontrole ou desintegração, [...] são crises agudas e intensas de ansiedade, acompanhadas por medo intenso de morrer ou perder o controle e de acentuada descarga autonômica (taquicardia, sudorese, etc.).”

O medo muitas vezes nos remete à infância. Como já mencionado, o medo do escuro, por exemplo, no qual elas imaginam formas horríveis de algo que pode surgir enquanto estiverem com as luzes desligadas. Essa situação não pode ser ignorada pelos pais, já que o sofrimento de estar com as luzes apagadas tem um peso muito maior do que se pode imaginar.

Quem já dormiu no embalo de músicas como boi, boi, boi, boi da cara preta, pega essa menina que tem medo de careta; nana nenê, que a cuca vem pegar…. É muito provável que essas cantigas fizessem parte da tentativa do adulto de disciplinar as crianças, mesmo que fosse inconscientemente. De alguma maneira elas tinham influência no imaginário da criança e isso poderia ou não desencadear algum tipo de medo.

O acalanto, canção ingênua, sobre uma melodia muito simples, com que as mães ninam seus filhos, é uma das formas mais rudimentares do canto, não raro com uma letra onomatopaica, de forma a favorecer a necessária monotonia, que leva a criança a adormecer. Forma muito primitiva, existe em toda a parte e existiu em todos os tempos, sempre cheia de ternura, povoada às vezes de espectros de terror, que os nossos meninos devem afugentar dormindo. Vieram as nossas de Portugal, na sua maior parte, e vão passando por todos os berços do Brasil e vivem em perpétua tradição, de boca em boca, longe das influências que alteram os demais cantos. (ALMEIDA, 1926).

No momento em que as crianças apresentam os primeiros sinais de medos “internos” os pais ou responsáveis devem agir dando aconchego, demonstrando que seus sentimentos são exagerados e a partir da construção de um ambiente seguro ajudar os pequenos a encarar esse medo gradativamente.

E quando o medo infantil ultrapassa seus limites e chega à fase adulta? A verdade é que os consultórios de Psicólogos recebem com muita frequência pessoas que relatam medo de algo, às vezes medos infundados que carecem de um tratamento específico.

Uma das técnicas mais utilizadas no tratamento do medo se chama Dessensibilização Sistemática. Na área clínica, o paciente é treinado em uma resposta que é antagonista a ansiedade, relaxamento muscular progressivo, então é solicitado que imagine uma série de situações que provoquem ansiedade enquanto está profundamente relaxado. Exposições ao estímulo evocador do medo na vida real, frequentemente são utilizadas para uma dessensibilização perfeita (King e cols., 1998).

Por fim, assim como os diversos medos nos acompanham, sendo eles patológicos ou não, existem maneiras de deixá-los para trás. Através de uma reflexão e análise das nossas vidas podemos reconhecer nossas limitações e assim, buscar a melhor forma para combater os nossos temores. A base para isso está na origem dos nossos medos e o exercício do autoconhecimento. Muitas vezes não vamos encontrá-los sozinhos, por isso quando você se sentir encurralado com sinais e sintomas, físicos e/ou psíquicos, insuportáveis, não se desespere, procure ajuda imediatamente através de profissionais especializados.

 

Bibliografia

ALMEIDA, Renato. História da Música Brasileira. Texas. Ed. Briguiet & Company, 1926.

CLASSIFICAÇÃO DE TRANSTORNOS MENTAIS E DE COMPORTAMENTO DA CID-10: Descrições Clínicas e Diretrizes Diagnósticas – Coord. Organiz. Mund. da Saúde; trad. Dorgival Caetano. Porto Alegre: Artmed, 2007.

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. Porto Alegre: Artmed, 2000.

KING, N. J., Molloy, G. N., HEYNE, D., MURPHY, G. C. & OLLENDICK, T.H. (1998).  Tratamento imaginário emotivo para fobias na infância: uma intervenção fidedigna e empiricamente validada? Comportamentais e Psicoterapia Cognitiva, 1998.

SIMONE CORRÊA LEMES (CRP 07/8913) – Perita Psicóloga, Especialista em Psiquiatria Forense, Saúde Mental e Lei pela Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, Psicoterapeuta, especialista em Psicologia Clínica pelo Instituto Fernando Pessoa, Pós-graduada em Investigação Criminal e Psicologia Forense pela AVM Faculdade Integrada de Brasília. Atuando na Justiça do Trabalho em processos de danos morais, danos psíquicos, assédio moral e sexual, doença do trabalho; na Vara de Família em processos de guarda de menores, pensão alimentícia, reconhecimento de paternidade; na Justiça Federal em processo ação cautelar de busca e apreensão de menor com base na Convenção de Haia e na Vara Cível em processos de interdição.  Avaliação de processos extrajudiciais, Professora do curso de Pós-graduação em Psicologia Jurídica, Psicologia Forense e Avaliação/Diagnóstico Psicológico na Faculdade IMED de POA e Passo Fundo, Professora de Cursos de Capacitação em Perícia Psicológica para profissionais do Direito e Psicologia, atua também como Assistente Técnica e, é sócia da empresa LEMES & MACIEL PERÍCIAS LTDA.

 

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